Uma Igreja em Saída

POPE FRANCIS CENTRAL AFRICAN REPUBLIC

“Quero que saiam fora”. Esse ímpeto do Papa Francisco em realizar uma conversão pastoral da Igreja rumo à missão é tão forte que se tornou conhecido até mesmo por quem não partilha da mesma fé.  Porém, embora sejam palavras exigentes, corre-se o risco do povo não compreendê-las por completo, sem serem traduzidas na mudança efetiva que se espera. É preciso, pois, buscar as raízes deste pensamento do Santo Padre para que se possa ter o mesmo ardor missionário que ele demonstra em seu testemunho cotidiano.

“A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus”. Se inicia assim a parte da Evangelii Gaudium dedicada à essa conversão pastoral da Igreja. É preciso compreender que, antes de qualquer coisa, a evangelização é uma missão confiada à Igreja pelo próprio Deus, que a quer e a realiza por meio de nós. Encontra nas Sagradas Escrituras sua base, desde o convite feito a Abraão até o chamado de cada Apóstolo. Ser povo em caminho é característica daqueles que buscam viver segundo o ensinamento do Senhor de Israel.

Porém, o “bem tende a comunicar-se”. A alegria que enche os corações dos discípulos é essencialmente missionária, quer multiplicar-se no coração dos outros através do anúncio, do testemunho. Vejamos o exemplo dos apóstolos em Pentecostes: tomados pelo fogo do Espírito, anunciam sem medo à todos que encontram. Ora, só quem faz experiência profunda de Deus é capaz de ser discípulo missionário autêntico, não pela força de saus palavras, mas pela atração de seu testemunho.

Francisco nos dá ainda cinco pontos essenciais para a vivência missionária:

1. “Primeiriar”: Somos discípulos não de uma filosofia, mas de uma Pessoa, que vive e busca ser presença na vida dos outros. É Cristo que passa por primeiro no coração de cada um, e somos convidados a seguir seu exemplo e estarmos sempre na iniciativa da evangelização.

2. Encarnar-se: O missionário deve ser capaz de entrar na vida do povo, no cotidiano de cada um, abaixando-se à realidade própria de cada pessoa e deixando ali as sementes do Verbo. Sem esse movimento, falam-se palavras bonitas, mas não há verdadeiro incômodo, verdadeira conversão.

3. Acompanhar: Não basta ser profeta midiático ou de momentos. Não, é preciso estar junto com o povo, acompanhando o processo de crescimento na fé. Tem-se aqui o grande exemplo de São Paulo. Mesmo tendo um apostolado exaustivo, nunca deixou de acompanhar as comunidades por ele fundadas.

4. Frutificar: “E vos designei para irdes e produzirdes fruto”. Nenhum trabalho é em vão, e nem pode se considerar completo sem que haja nele os frutos do esforço realizado. Claro, é Deus o único que pode compreender em plenitude os resultados do apostolado, mas ninguém pode se escusar da responsabilidade de ter fecundidade naquilo que realiza.

5. Festejar: Ah, essa é a melhor parte: o discípulo missionário é alguém que deve saber festejar. Festeja não porque é bobo, mas porque tem otimismo diante da vida, sabe reconhecer a bondade do trabalho que realizar e é profundamente agradecido ao Senhor por tudo aquilo que tem feito por meio dele.

Nesse movimento de conversão pastoral, encontra-se toda a Igreja, desde o fiel de nossas comunidades até as Conferências Episcopais. Todas as estruturas devem ser repensadas para estarem “em saída”, sabendo compreender  as necessidades do mundo atual e indo ao seu encontro onde estiver, aplicando-lhe o remédio da Misericórdia.

Eis outro ponto muito importante: o que se anuncia. Ora, de nada adianta sermos grandes missionários, pessoas que povoam o mundo de discursos se nossa mensagem não está correta, foge do Evangelho. Precisamos ser realistas: nem todos compreendem a mensagem da Igreja, e nem a própria Igreja entende por completo a beleza daquilo que anuncia. É antes de tudo instrumento utilizado por Cristo para anunciar o mistério do Amor. Não pode confundir as coisas e anunciar aquilo que é “detalhe” no lugar do que é essencial: o kerigma é antes de tudo a Misericórdia.

Não se pense que, por reformular o modo de anunciar, se está traindo a mensagem originária. Quem sabe chegar ao coração dos outros é Deus,e é Ele o primeiro missionário. Uma pregação conforme o coração do Evangelho deixa clara a verdade moral sem ficar jogando na cara dos outros aquilo que devem ou não fazer: elas são capazes de compreender isso através do encontro que tem com o próprio Cristo. Não é o anúncio de um conjunto de doutrinas que tem força de conversão, e sim o testemunho.

 Renovar a forma de expressão para transmitir no hoje a mensagem de sempre. Eis o mote que deve permear a prática pastoral de todos aqueles que estão no rebanho da Igreja, sob o movimento da “Nova Evangelização”. É saber aproximar o ensinamento das pessoas, sem escravizar com preceitos, mas apresentar a lei da liberdade. É saber mostrar que a fé é a fé no Cristo Crucificado, que os cristãos são um povo de luta, que vivemos sob a égide da Cruz. Mas tudo isso sabendo acompanhar o crescimento de cada um, sem querer que se façam santos de um dia para o outro. O discípulo é consciente das limitações e não renuncia ao bem possível.

A igreja em saída é, portanto,  “uma Igreja com as portas abertas”. É casa paterna, que acolhe a todos, em especial aos pobres. É morada de um povo que não se acomoda, mas sabe ir ao encontro. Não é museu, é hospital. É simplesmente o local onde as ovelhas podem sentir o carinho do Bom Pastor.

“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças.”

Alegrai-vos!

“Alegrai-vos sempre no Senhor” Fl 4,4

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Uma reflexão sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium

“A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”. É com esta pequena frase que se inicia o documento que define a ação pastoral da Igreja no pontificado de Francisco, a partir de seu próprio exemplo. Mergulhar na Evangelii Gaudium é entrar em contato com o coração do Papa, compreender sua visão de mundo e as urgências que atormentam seu coração e às quais dá especial atenção em seu ensino e ação. Por isso, é essencial que todos os crentes que se colocam sob a guia do Bispo de Roma compreendam o sentido pleno de tão bela exortação dirigida à Igreja – simples, mas exigente: Alegrai-vos!

Mas o que significa essa tal alegria que Francisco tanto anuncia e busca fazer com que todos vivenciem? Na sociedade pós-moderna, consumista e hedonista, em que os valores se tornam líquidos e a felicidade um bem de consumo fugaz, é fácil confundirmos o valor da Alegria plena com os prazeres múltiplos que o mundo é capaz de oferecer, mas que nunca saciam.

Aqui Francisco já inicia sua exortação à conversão: aqueles que se chamam de cristãos não podem deixar-se levar por essa cultura individualista, de uma tristeza que fecha-se em si mesma ou de uma alegria de momentos, segundo um “carpe diem” libertino. Mas antes devem renovar seu encontro com o único capaz de proporcionar uma Alegria que perdure: Jesus Cristo, Deus Encarnado, que por livre escolha quis partilhar a vida com a humanidade como irmão dos mais pobres.

Essa alegria é profundamente relacional. Não se pode ser feliz sozinho, não podemos cair na tentação pelagiana de nos fecharmos unicamente em nosso próprio mundo e esquecermos de todo o resto. Não, quem quer ser feliz realiza um caminho de saída: sai de seus próprios interesses e desejos e doa-se ao outro, acolhe-o, encontra-o. É capaz de compadecer-se e de abaixar-se para limpar suas feridas, assim como o Bom Samaritano, sendo Evangelho vivo na vida de seus irmãos.

Faz isso não porque considera-se melhor do que alguém, mas unicamente porque carrega em si o “peso” do testemunho. Antes, foi ele mesmo quem experienciou isso em sua própria carne: deixou-se ser encontrado por Cristo, teve suas feridas cuidadas, um olhar de misericórdia devolveu sua dignidade. Por isso a alegria evangélica é capaz de lançar raízes no mais profundo do homem: porque nasce da profunda renovação que Jesus realiza no coração, no mais íntimo de cada um daqueles que encontra.

Esse chamado à Alegria deve saber vencer também todas as dificuldades que muitas vezes nós mesmos colocamos: a murmuração, a visão pessimista da vida, a desesperança. Quem carrega dentro de si a semente do Verbo não pode se deixar levar pelas pedras no caminho, mas antes consegue superá-las com a força que vem de Deus. É Ele o verdadeiro apóstolo, o primeiro interessado na tarefa da evangelização, e é d’Ele que tiramos forças para a nossa caminhada cotidiana.

A Nova Evangelização é, portanto, mais do que uma tarefa a mais que a comunidade de fé realiza. É sua missão intrínseca, aquilo que lhe dá forma: somos discípulos missionários, profetas da esperança em um mundo que muitas vezes não consegue ver a luz no fundo de suas misérias. Devemos, portanto, ir ao encontro de todos: desde nossos fiéis nos bancos das paróquias até aqueles que nunca ouviram falar de Cristo.

Não podemos nos escusar: É nossa missão, não de outros. E ela se realiza não por grandes esquemas, por planejamentos pormenorizados, por estruturas pesadas que antes confinam do que servem. O Apóstolo do mundo hodierno deve ser vivencial. É o testemunho que arrasta, não a força de seus argumentos. Somos pessoas de “sensações”. Em uma sociedade tão repleta de situações que prometem cada vez mais felicidades fugazes, a Igreja deve ser capaz de oferecer uma experiência profunda, vinda do frescor do Evangelho. Simples e por isso mesmo tão revolucionária: a Alegria de ser de Deus.

 

“Um Ano da Graça do Senhor”

“O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes,curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade;proclamar um ano de graças da parte do Senhor” Is 61,1-2

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Inicia-se na vida do povo mais um ano. Fechou-se um ciclo e inicia-se outro. Muitos foram os festejos e agradecimentos, ainda maiores foram os pedidos para que esse novo período que nasce venha cheio de coisas boas. Cabe aqui pensar, contudo, no que consiste verdadeiramente a celebração de Ano Novo, e o que podemos fazer para que esse 2016 seja ainda melhor que 2015.

Chesterton dizia que “O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É que nós deveríamos ter uma alma nova.” É verdade. Ontem fizemos tantos propósitos, sorrimos, nos abraçamos. Hoje já começamos a falar mal do outro, a criar intrigas, a praticar o pecado. Chega o fim do ano e reclamamos que o ano não foi tão bom assim. É claro! Você renovou o calendário, mas não o coração! E se ele não for novo, nada vai ser novo.

A Igreja, como mãe providente, nos convida no primeiro dia do ano à voltar o olhar ao mistério de outra Mãe, a de Deus. Maria Santíssima é a portadora do Cristo, a que dá ao mundo o cumprimento das profecias na plenitude dos tempos.

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Essa Solenidade nos dá os elementos chaves da vivência de um bom ano. Primeiro, a “plenitude dos tempos”. Fizemos muitas promessas para esse ano, de começar isso ou aquilo, mas pouco tempo depois nos esquecemos dela e “esperamos a hora certa”. Ora, Jesus veio na “hora certa”, na plenitude dos tempos, não porque a época em que ele nasceu fosse a melhor de todas, mas porque “A plenitude do tempo é a presença de Deus em nossa história”, como disse o Papa Francisco na homilia de hoje.

Isso nos mostra que não podemos ficar esperando que venha um sinal divino para por adiante os nossos projetos, mas antes devemos colocá-los nos trilhos já. É o hoje que possuímos, e nada mais. Devemos agir hoje, agora! Com Jesus, não existe amanhã, só o agora. Não devemos mais ter medo, Ele nos visitou, está conosco, então vamos em frente!

Esse ano Jesus tem muitos planos para nós, mas as vezes não queremos escutá-lo, queremos fazer só a nossa vontade. Maria também nos ensina com seu exemplo vivo. Ela, a Mulher do “Fiat”, nos mostra que também nós devemos ter essa profunda e sincera disponibilidade para cumprir a vontade de Deus.

Fazer isso não é tornar-se prisioneiro, mas livre, verdadeiramente feliz. Vai saber quantas alegrias você não está perdendo ou irá perder por não deixar o Senhor agir na sua vida? “Entregue o leme à Jesus” e viva a alegria de ser de Deus!

Por fim, voltamos nosso olhar a outro elemento do Evangelho de hoje: os pastores. Os pastores são o povo simples e pobre que se encontra com o maior mistério da história: Deus, o Criador dos Céus e da Terra, fez-se Menino, fez-se também pequeno, por Amor. Não guardam essa Boa Nova unicamente para si, antes anunciam pelo testemunho e pela palavra, com alegria.

Nesse Ano Novo, que a promessa de Isaías cumpra-se também em você: encontre-se com o Menino Deus no estábulo de Belém e vá, com o espírito do Jubileu da Misericórdia, ao encontro do mundo, evangelizando a todos, libertando os cativos pelo pecado, curando os corações feridos e anunciando, com a vida, um Ano da Graça do Senhor.

Viver o Hoje, dando espaço à Vontade de Deus e aceitar a Missão, anunciando a Alegria do Evangelho. Três pequenas coisas, que exigem esforço e compromisso, mas que são as chaves de um bom 2016. Que a vivência desses pontos te ajudem a ter um coração novo, e assim um Ano Novo, percorrendo esse caminho de felicidade a cada dia.

Feliz Ano Novo! Feliz Coração Novo! Feliz 2016!

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Viver o Tempo da Misericórdia

“A Igreja tem a missão de anunciar a Misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa.”

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Hoje, dia 08 de Dezembro, foi aberto oficialmente o Ano Santo da Misericórdia. Este Ano Jubilar, tão querido pelo Papa Francisco, estende sua ação de modo universal: todos são convidados a encontrar-se com a Misericórdia. Mas o que isso quer dizer para mim, para minha vida? O que o Papa quer que vivamos nesse tempo?

Um Ano Jubilar é um ano forte para toda a Igreja. Comemorado ordinariamente a cada 25 anos, busca fechar um ciclo e convidar todos os cristãos a olhar com gratidão ao passado. Também quer que cada um renove o próprio coração, cansado ou preguiçoso na busca das virtudes pelo tempo que se passou. Por vontade do Papa, também se pode proclamar um Ano Santo Extraordinário, em comemoração a algum aspecto em específico. São João Paulo II foi a último a fazer isso, no Ano Santo da Redenção em 1983, em comemoração aos 1950 anos da Paixão e Ressurreição de Jesus

Ano Santo da Redenção

E foi isso que o Papa Francisco fez. Em um serviço penitencial no dia 13 de Março, surpreendeu ao anunciar o Ano Santo da Misericórdia, segundo ele, porque “pensei em como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia.”

No documento papal que oficializa o Jubileu, a Bula “Misericordiae Vultus”, o Papa nos dá orientações bem precisas do que quer que vivamos neste Ano, iniciado no dia 08 de Dezembro, em que lembramos também a conclusão do Concílio Vaticano II há 50 anos. “O Concílio da Caridade” foi uma oportunidade da Igreja sair de suas estruturas e ir ao encontro do Povo. Também é esse o caminho que o Papa quer que façamos, “na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual”.

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Existem alguns sinais práticos para nossa participação no Ano Santo. O mais significativo é a abertura da Porta Santa. Ela é sinal dos braços abertos do Pai, que nos espera com seu Amor e Misericórdia. Esse ano, por vontade do Papa, a Porta será aberta não só em Roma mas também em todas as dioceses do mundo. Todos somos convidados a irmos em peregrinação até a Porta Santa de sua diocese e, ao atravessá-la, “deixar-nos-emos abraçar pela Misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser Misericordiosos com os outros como o Pai o é conosco”.

Eis a grande dimensão que o Papa nos convida a viver nesse ano que se inicia: sermos, no mundo, sinais da Misericórdia. Assim como na parábola dos talentos, Deus não nos dá a graça para a enterrarmos, para a guardarmos em nós mesmos. Não somos chamados a ir à Porta Santa, a tirar algumas selfies e ficar por aí mesmo. Não: somos chamados a levar a graça que recebemos aos outros!

Devemos então ir ao encontro dos nossos irmãos largados nas periferias do mundo, nas piores misérias espirituais e materiais, e derramar em suas feridas o óleo da Misericórdia, dar-lhes o conforto de um Deus Presença. Devemos realizar as obras de Misericórdia, tanto as Espirituais quanto as Corporais! São 14 pequenos atos, que não precisamos ter pressa em fazer de uma vez só. Basta estarmos abertos ao Espírito Santo, que nos guiará para, um pouco ali ou aqui, realizar esses sinais da Misericórdia junto às pessoas.

“A boca fala do que o coração está cheio”. Se eu quero falar de algum assunto, estudo antes. Se quero avaliar algum filme, eu o vejo. Se quero ver se alguma comida é boa, eu a provo. Também é assim com Deus: se quero anunciá-lo, devo experimentá-lo, encontrar-me com Ele verdadeiramente. Posso até falar palavras bonitas, mas sem o Encontro, não serão sinceras!

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Nesse Ano da Misericórdia, a Igreja nos convida: Se deixe encontrar pela Misericórdia do Pai, especialmente através do Sacramento da Confissão! A Igreja nos convida a participar da Confissão ao menos uma vez ao ano, mas todos somos pecadores, e precisamos constantemente desse remédio que cura a nossa alma.

Deixe de lado essa vergonha, esses escrúpulos, essas dúvidas: volte pra Casa, volte pra Deus! Ele sempre perdoa, sempre derrama sua Misericórdia sobre nós… basta sermos verdadeiros e estarmos arrependidos! Esse Ano Santo é o Ano em que o centro da vida pastoral da Igreja é a Confissão: não fuja do Abraço do Pai!

Por fim, gostaria de deixar esse último conselho: não deixe o Ano da Misericórdia passar em branco na sua vida. O Papa Francisco está acreditando nesse Jubileu como um tempo novo na Igreja, como um tempo novo para todo o mundo.Peça a Maria, ela que é “Aurora da Nova Criação”, a graça de fazer dele também um tempo novo na sua vida! Acompanhe os eventos nas redes sociais, informe-se das iniciativas em sua diocese, participe de corpo e alma nesse Ano Santo!

É Tempo da Misericórdia!

A Igreja não é Casa da Mãe Joana!

 

“Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” Mt 26,39

Uma coisa que percebi ao longo da caminhada é que as pessoas tem a leve impressão de que a Igreja é tipo um Subway: chegou , peço e faz como quero. Tenho certeza que quem participa de alguma comunidade tem história desse tipo pra contar: é noiva que quer entrar com Hino do Corinthians, é cachorro que leva aliança, é missa-show, é coordenador de pastoral que quer mandar mais que o padre… enfim, um show de fatos tão sem pé nem cabeça que parecem inventados!

Porém, por mais que seja algo que renda boas risadas nas sacristias, é triste de certa forma. Temos que ver o que, em primeiro lugar, ocasionou isso, esse “senso de tudo posso, tudo vale” na Igreja.

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Ao falar sobre Liturgia, o Papa Bento XVI dizia que quando começamos a “topar tudo por fiéis”, transformando-a em mera diversão de gênero religioso, temos um problema. Não só na Missa, mas em todos os aspectos da vida eclesial isso se apresenta: quando se perde o senso do sagrado, do verdadeiro sentido das coisas, busco um “Playcenter de Deus”, mas não um culto autêntico. Isso é notável especialmente nos casamentos: grandes decorações, grandes festas, luzes pra todo lado… e ali fica o Sacrário, sozinho, o verdadeiro centro da celebração esquecido no meio de tanta parafernalha.

Temos também presente um dos grandes pecados, o que começa tudo: o Orgulho, o egoísmo, a autossuficiência. Não só na Igreja, mas também no mundo encontramos isso: a crise da Obediência. Quando a realidade passa a girar em torno do meu umbigo, quando todos tem que me obedecer, ai de quem discordar!  Aí se passa por cima dos ritos, do padre, do senso comum. Começo a considerar a comunidade como “minha”, a ter a “minha” pastoral, “meu” grupo, ver a Igreja como minha propriedade. Faço tudo o que quero, porque só escuto a mim mesmo!

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Tanto em um como em outro aspecto, vemos uma coisa: perdeu-se a visão de Igreja como Corpo de Cristo. A comunidade cristã não é nunca pode ser instrumentalizada ou “privatizada”. Não obedece a si mesma e nem termina em si mesma: antes, faz o caminho de discipulado daquele Deus que se fez Carne. É Jesus o verdadeiro chefe… não se tem espaço pra outro “cacique”!

Na Igreja, estamos sempre a serviço dos que mais precisam, em escuta do Outro para quem caminhamos, para quem fazemos todas as coisas. Não, não podemos fazer arbitrariamente o que você quer, ou o que nós queremos: somos meros agricultores da vinha do Senhor. Isso todos: desde o fiel da missa das 10h até o Papa. Aqui se serve, não se manda!

Devemos portanto ouvir o apelo do Filho do Homem, “que não veio para ser servido, mas para servir”. Sair de nossas suposições pré-concebidas, de nosso senso de poder e propriedade… não somos donos da Igreja, e o próprio Dono um dia “entregará a realeza a seu Deus e Pai, para que Deus seja tudo em todos”. Esse é objetivo: dar a todos o senso de Deus, a presença do Sagrado. Não somos ONG, nem buffet. Não fazemos eventos, ministramos Salvação! Não damos carteirinha, nem autenticamos propriedade em cartório: nos colocamos a serviço dos mais pobres!

A Igreja não é sua Várzea!

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“Ora, vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte” 1 Co 12,27

Como viver bem o Advento?

“Eis que vem o Rei da glória
Eis que vem o Poderoso
Eis que vem forte Guerreiro
Para vencer todo mal”

Ontem, 29 de Dezembro,a comunidade cristã celebrou o Primeiro Domingo do Advento. É o início de um novo ano na Liturgia, de um novo ciclo da História da Salvação. E para isso, somos convidados a olhar para o início de tudo: o pequeno estábulo de Belém onde nasce o Deus Menino.

Parece estranho que se comece um ano novo pelo “meio” da História. Não seria mais lógico fazer a perspectiva linear da Criação, começando com o Éden, com a História de Israel?

Bem, aí entramos na grande questão: o menino de Belém é o Verbo, a Palavra Divina. Ele é a chave de interpretação de toda a Escritura, de toda a nossa história. Ele insere-se na perspectiva do Povo Eleito mas a alarga, a expande rumo aos confins da Terra, faz todos serem chamados à, com os Pastores, se encontrar com a plenitude da promessa, o cumprimento das profecias em um bebê tão pequeno…

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Jesus restaura em si todas as coisas. Ele inicia em si a Nova Aliança, a Nova Criação. Quando Deus irrompe na História, leva toda a humanidade para junto de si, restaura a ligação perdida pelo pecado. É Ele o filho da descendência humana que esmaga a cabeça da serpente, é Ele o rosto divino que estava escondido na Sarça Ardente, é Ele o verdadeiro Cordeiro que pode tirar o pecado com seu sangue, é Ele o Servo Sofredor de Isaías, que leva sobre si suas dores. É o Cristo que em si tira o véu do Antigo Testamento e nos faz compreender o que ali estava escondido!

E tudo se inicia com um dia comum numa cidade pequena da Galileia… quando uma jovem pobre recebe uma visita inesperada e diz seu Sim, se entrega inteiramente à vontade do Senhor. Quando Maria se torna Tabernáculo, Guardiã e Mãe do Filho de Deus, a humanidade encontra ali novamente a esperança de viver, pois sabe que não está abandonada: seu Senhor veio visitar a Vinha…

Jesus realiza sua Missão, e volta ao Pai. Cumpre o desígnio de sua Vida e volta à Glória… mas não se afasta de nós. Sua presença é real na sua Igreja, no seu povo, nos seus sacramentos e na História. Mas também nos convida a crer que virá um dia para “fechar o ciclo” dessa imanência temporária e nos conduzir à verdadeira Realidade, à Jerusalém Celeste, nossa pátria mãe!

O mistério do Natal é um mistério de esperança. É também mistério de Eternidade: Cumpre as promessas, possibilita a Missão, é sinal da vinda futura. São essas três chaves que nos permitem perceber sua grandeza. É para isso que nos preparamos nas quatro semanas anteriores, com o que chamamos Tempo do Advento.

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Sim, voltamos a usar Roxo. O Advento é antes de tudo uma preparação. Assim como na Quaresma, voltamos nosso olhar para um Mistério maior que nós mesmos, e buscamos ir arrumando nosso coração para a Festa. Embora menos “penitencial”, o Advento ainda é um tempo de interiorização, de conversão do coração. Não é para encher linguiça no calendário: deve ser bem vivido!

Devemos olhar também para a nossa história como lugar teológico, de presença, de vinda de Deus. Também em nós Deus se faz carne, cumpre as promessas que nos fez, nos dá esperança de libertação e a realiza. Também nosso coração é manjedoura, é sacrário do Verbo, que nos dá vida e alegria. Por isso, devemos olhar para dentro de nós mesmos e ver como estamos descuidados! Precisamos “trocar nossa palha”, nossos costumes e sentimentos, e estar preparados para a vinda desse Deus tão pequeno.

Devemos viver o Advento como tempo de Missão. Jesus não veio para ficar escondido em Belém. Devemos ser como os anjos, que anunciam sua Glória. Devemos ser como os Pastores, que se encontram com o Menino e saem testemunhando a alegria da Salvação! Devemos eletrizar nossos amigos e familiares com essa certeza, com nosso testemunho: Deus vem, está no meio de nós, nos ama, quer se fazer próximo!

Devemos viver o Advento como tempo de Esperança. Vamos parar de ser cobras, viver arrastados no chão. Não! Somos criados para o Céu, para o Alto, para a grandeza! Mesmo no meio das dificuldades, devemos “levantar nossas cabeças pois a Libertação está próxima”. Confiemos no Senhor, que vem no Hoje da história, de nossas vivências!

Acima de tudo, não devemos viver o Advento como um tempo de espera inútil. Quando se quer passar numa faculdade todo mundo espera o tempo que for, estuda, se prepara, rala… e quando se quer passar no exame do Céu? Ali não nos esforçamos… que pena! É o único que realmente importa… e é tão fácil! Basta amarmos, amarmos de verdade! Tirar do nosso coração todo o Pecado, e participar com toda confiança do grito do Apocalipse:

“O Espírito e a Esposa dizem: Vem!” Vem, Senhor Jesus!

Um bom Advento a Todos!

 

Vamos Mudar o Mundo

“-Senhor, o que nós vamos fazer? -Nós vamos Mudar o Mundo”

Pedro e Jesus, Série A Bíblia

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Fico triste quando vejo as pessoas sem esperança, sem projeto de vida. Existências que passam por si mesmas, que julgam não ter relevância. Pessoas que pensam que existem para crescer, viver e morrer somente…

Não sejamos bestas: Deus não desperdiça formas. Ninguém foi criado para ser uma alma “meh”. Não tinham filas separadas na Criação: uma das grandes personalidades, outra do povo comum…

Não! Somos chamados a ser grandes, porém, não grandes como entende o mundo. Não temos como missão ganhar prêmios, sair na capa de revistas ou ter muitas curtidas no Facebook. Não… Antes, todos participamos da vitória em Cristo, somos “Templos do Espírito”, herdeiros do Céu. E para lá devemos ir, colocando-nos por inteiro a serviço dos irmãos, com a capacidade que o Senhor nos deu!

Essa é a grandeza a qual o Senhor nos chama: a Santidade. É uma grandeza que antes de tudo brota do encontro pessoal com o Cristo. Esse encontro, que nos transforma, nos dá novo sentido assim como a água de Caná, é o ponto de partida de um grande e novo roteiro, rumo à grandeza do Céu. Quem se encontra com Jesus não fica na mesmice de sempre!

Esse encontro não fica fechado em nós mesmos, e aí entra a grande questão: A partir dele, somos como “luzeiros em meio a essa geração”. Chamados a ser contracorrente, revolucionários de Deus, transformadores da realidade. Chamados a ser apóstolos do Reino!

“Ah, mas sou apenas uma criança”… nessa hora, quando o chamado de Deus nos é apresentado, imediatamente apresentamos tantas dificuldades, tantos empecilhos aparentes. Já falei disso em outro post, mas repito: os critérios de Jesus não são os nossos. Deus não é formado em RH! Não chama pessoas preparadas, mas prepara os chamados.

Jesus não olha o que temos, ou o quanto temos. Assim como com a viúva no tesouro do Templo, olha a abertura de coração, a totalidade da doação. Um coração inteiro de Deus realiza maravilhas! Sendo grande ou pequeno, forte ou fraco, a presença sem empecilhos de Deus transforma, usa a alma como instrumento de salvação, torna-a quem ela realmente deveria ser: Luz do Mundo!

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“Para vos tornardes irreprováveis e puros, filhos de Deus, sem defeito, no meio de uma geração má e pervertida, no seio da qual brilhais como astros no mundo” Fl 2,15

No sábado, 21, celebramos a Apresentação de Maria… tão jovem, pequena e pobre, nada tinha para dar ao seu Senhor, “só” ela mesma. A doação daquela menina de Nazaré mudou o mundo. Transformou a vida de toda a humanidade. Sua abertura possibilitou que Deus reinasse, e Ele a coroou Rainha! E no início, apenas uma jovem de uma cidadezinha perdida no meio do nada…

Maria tem íntima ligação com esse processo de transformação, de renovação da nossa pequenez em grandeza. Não só com seu exemplo, mas também com sua “onipotência suplicante”. Por ela, o Espírito desce em nós como em Pentecostes, pegando homens fracos e temerosos e transformando-os em Apóstolos, em brasas que incendeiam o mundo no fogo do amor de Deus.

Não parou no Cenáculo… ainda hoje, o Espírito transforma os nossos corações, nos torna evangelizadores, grandes! Devemos dar a Ele a abertura necessária, doação por inteiro! Ser como Pedro, Paulo, João… Ser como Teresa, Francisco, João Bosco… como Madre Teresa, João Paulo II… Ser Apóstolo, Restaurar todas as coisas em Cristo, ser corrente para eletrizar o mundo, Hoje! Enfim, ser simplesmente santo! Essa é sua missão: incendiar a humanidade! Deixe Deus trabalhar em você…

Vamos Mudar o Mundo!

“Se fordes o que deveis ser, colocareis fogo no mundo” Santa Catarina de Sena11011245_965158763543278_3311813465947839090_n